Pausar

Este blog precisa pausar.
Ele que começou com postagens-pílulas sobre criação literária. 
Entrevistou escritores.
Depois virou laboratório de textos, diário de bordo, depositário de antigas tentativas e recentes angústias.
Agora o autor por mais que faça conta não dá conta de bem fazê-lo, então melhor não.
(Como nessas coisas não há partitura) Sabe-se lá até quando.


Bentanias

O ano, 1999. A idade, 21, quase 22. E eu era bancário. Provavelmente o bancário mais infeliz que já existiu, mas tinha passado no concurso e precisava trabalhar. Então, no carnaval, inventei uma desculpa para ter um dia a mais de folga e tomei um ônibus de São Paulo para Bento Gonçalves. 18  horas de viagem. Ou 21. Fui sozinho. Fiz amizade nos dias seguintes, no albergue de Canela. Mas em Bento, eu me lembro que fiquei na pousada Casa mia, ao lado da Vinícola Aurora, num rua de paralelepípedo. Vaguei à noite pela cidade vazia. Parei numa praça. Fiquei escrevendo poemas que talvez nem sejam poesia. Mas os reencontrei dias desses.

Bentania  1

Carnaval em Bento,
Tomo suco de uva Aurora,
A casa verde e marrom tem porão,
As outras são de madeira,
Equilibro-me sobre paralelepípedos,
O minuano me causa dor de ouvido,
Bebo suco de uva.


Bentania 2

A música dos anos 70 me deixou deprimido,
Não cheguei a conhecer Garibaldi,
Apenas vi maçãs na beira do caminho,
A praça está deserta,
Quase ninguém na noite fria,
A igreja tem forma de pipa,
O vinho bagunça meus sentidos,
Ah, como faço para não me perder?


Bentania 3

Quero ter uma convulsão na grama, 
Sentir o mundo sumindo aos poucos,
E quando abrir os olhos, estar em braços teus,
Minhas orelhas tão frias recebendo teu ar quente,
Atrás de ti, o céu, 
E nós dois no paraíso.

Truman Capote e a autoflagelação

Truman Capote começou a escrever com oito anos de idade - de uma hora para outra, sem se basear em nenhum exemplo. Nunca tinha conhecido ninguém que escrevesse e conhecia muito pouca gente que lesse. “O importante, porém, é que as quatro únicas coisas que me interessavam eram: ler livros, ir ao cinema, dançar sapateado e desenhar”, diz ele no prefácio de Música para camaleões, uma coletânea de seus textos de jornalismo literário.

“Então, um dia comecei a escrever, sem saber que estava me escravizando para o resto da vida a um senhor nobre, mas impiedoso. Quando Deus nos dá um dom, também dá um chicote - e esse chicote se destina exclusivamente à nossa autoflagelação." 

Durante a infância e a adolescência Capote escreveu “histórias de aventuras, romances policiais, pequenas comédias para teatro, contos que ouvi da boca de antigos escravos e veteranos da Guerra Civil”. Ele se divertia muito, conta, mas a diversão acabou quando percebeu a diferença entre um texto bem escrito e um com problemas. A situação piorou ao descobrir que a diferença entre um texto muito bem escrito e a verdadeira arte “é sutil, mas bárbara”. Capote afirma que foi a partir daí que o chicote se pôs a estalar.


Chimarrão escatológico


Enfiaram a bomba na cuia encheram a cuia de água

a bomba na cuia chuparam chuparam 

desperta o chimarrão despertou

o desejo foram pro quarto

fazer amor foram

com vontade pro quarto

mas aquela água toda

no quarto na cama 

fizeram fizeram 

amor e xixi.


Da janela de um hotel de Amsterdã


Outro dia tive um chat

com o Chet Baker


Apoiado no parapeito

sem parar e sem embocadura

ele me disse

sua glória e perdição

é que sempre gostou de voar:


"Fui cão sarnento mas

andorinha também fui

feridas asas balançando

com pesada suavidade

numa eterna tarde em busca

de um etéreo e estivo fim de tarde."


Eu então olhei do alto

a noite vermelha da cidade holandesa

cheia de canais e veio a calhar

calhou me veio

um poemeto sem jeito inspirado

na pungente figura

triste figura

que sonhou sonhei.


Nota-se a tonalidade emocional das notas

deep in a dream of you

desperto de dor.



 

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