Pausar

Este blog precisa pausar.
Ele que começou com postagens-pílulas sobre criação literária. 
Entrevistou escritores.
Depois virou laboratório de textos, diário de bordo, depositário de antigas tentativas e recentes angústias.
Agora o autor por mais que faça conta não dá conta de bem fazê-lo, então melhor não.
(Como nessas coisas não há partitura) Sabe-se lá até quando.


Truman Capote e a autoflagelação

Truman Capote começou a escrever com oito anos de idade - de uma hora para outra, sem se basear em nenhum exemplo. Nunca tinha conhecido ninguém que escrevesse e conhecia muito pouca gente que lesse. “O importante, porém, é que as quatro únicas coisas que me interessavam eram: ler livros, ir ao cinema, dançar sapateado e desenhar”, diz ele no prefácio de Música para camaleões, uma coletânea de seus textos de jornalismo literário.

“Então, um dia comecei a escrever, sem saber que estava me escravizando para o resto da vida a um senhor nobre, mas impiedoso. Quando Deus nos dá um dom, também dá um chicote - e esse chicote se destina exclusivamente à nossa autoflagelação." 

Durante a infância e a adolescência Capote escreveu “histórias de aventuras, romances policiais, pequenas comédias para teatro, contos que ouvi da boca de antigos escravos e veteranos da Guerra Civil”. Ele se divertia muito, conta, mas a diversão acabou quando percebeu a diferença entre um texto bem escrito e um com problemas. A situação piorou ao descobrir que a diferença entre um texto muito bem escrito e a verdadeira arte “é sutil, mas bárbara”. Capote afirma que foi a partir daí que o chicote se pôs a estalar.


Chimarrão escatológico


Enfiaram a bomba na cuia encheram a cuia de água

a bomba na cuia chuparam chuparam 

desperta o chimarrão despertou

o desejo foram pro quarto

fazer amor foram

com vontade pro quarto

mas aquela água toda

no quarto na cama 

fizeram fizeram 

amor e xixi.


Sobre um dos usos da faca

A conta dava 9,40.

“Débito, por favor.”
“Tu não precisa de mais nada? Só para inteirar 10 reais?”

Peguei dois chicletes de 0,25. Devolvi. Peguei um chocolate de 1,25. Valor total: 10,65.

O homem digitou 11 reais na máquina.

“Deu 10,65”, eu disse.
“Eu ia te dar mais um chicletezinho. É só para inteirar 11.”

Silêncio.

“Desculpe”, ele disse. “Geralmente pergunto antes.”
“Não, tudo bem”, eu disse. “É só que fico puto com isso.”
“Então desputeia. Não vale a pena ficar puto por tão pouco. E o importante é a máquina funcionar.”
“A minha mãe tem uma loja. Eu sei que essas máquinas funcionam até com um real. Só que sempre tem a taxa de utilização que o lojista tem de pagar.”
“E a sua mãe gosta de passar um real no débito?”
“Claro que não.”
“Tá vendo...”
“Mas 10 reais ela passa sem tentar empurrar mais coisas para o freguês.”

Me lembrei então do David Mamet.

O homem: “Você tem sorte que eu não sou daqueles que guardam uma arma embaixo da caixa registradora.”
Eu: “O senhor tem azar.”

Olhares.

O David Mamet tem um pequeno livro – 80 páginas – chamado Três usos da faca – sobre a natureza e a finalidade do drama. É um livro básico, com algumas tiradas úteis. Das que eu me lembrei (fui conferir ao chegar em casa, estão justamente na página 11):

Dramatizamos a vida lançando mão do exagero, da justaposição irônica, da inversão e da projeção, todos os instrumentos que o dramaturgo utiliza para criar e o psicanalista usa para interpretar fenômenos emocionalmente significativos.

Dramatizamos um incidente tomando os eventos e reordenando-os, alongando-os e comprimindo-os, a fim de poder compreender seu significado pessoal para nós.



Olhares

“Eu tenho uma arma”, eu disse. “É uma faca, na verdade. Um canivete. Daqueles de acampar. Com um botão. Aperto o botão, a lâmina abre. Bem afiada.”

Que cada um imagine a expressão do homem no caixa.

Eu: “O senhor também tem sorte. Não estou a fim de usar a faca agora.”

Joguei uma nota de 10 reais no balcão, peguei o meu cartão e o meu pacote e saí.

Montagem e colagem pensando no dia de hoje


Porquês

porque a vida nos golpeia golpes inesperados (nosso cachorrinho morreu envenenado faz 19 dias e acho que nunca vou pensar nisso livre de lágrimas).

porque outros golpes são bem esperados.

porque chove lá fora a casa é fria úmida e a esperança parece ter embarcado numa longa viagem.

porque aquela frase de Hemingway autor empírico em O velho e o mar:  "– Mas o homem não foi feito para a derrota – disse em voz alta. – Um homem pode ser destruído, mas nunca derrotado”, essa frase não se sustenta no atual estado da humanidade.

por esses porquês eu não achava ânimo mas me forcei e começando com as minúsculas que a sem grandeza situação pede.


Frases 1

Do Blog do Menon, comentarista esportivo do Uol: “Hoje, o 7 a 1 passa a ter um companheiro na galeria de vexames [...]. O resultado do jogo não interessa. O jogo é a vergonha. Sua existência nos envergonha.”)

De algum artigo acadêmico: "A montagem (justaposição de trechos) foi uma das grandes inovações da literatura de vanguarda. Não só em busca do efeito do choque, mas também na estruturação do texto [...] Com o tempo o conceito de colagem (citação de material extrínseco) complementou e se confundiu com o de montagem.


Trecho 1

No ônibus no último sábado fim de tarde começo de noite muito começo de noite noite do país chamado Brasil.

O cobrador ao motorista:

“A Manuela  (d'Ávila) eu conheço pessoalmente, ordinária, vagabunda, sem vergonha, a Maria do Rosário eu quero que caia um avião com ela dentro, pode estar junto também a Luciana Genro, que defende a maior podridão que existe no Brasil, os direitos humanos".


Dicionário

gol·pe
(latim colaphus, -i, bofetada, murro, do grego kólafos, -ou, pancada na face)
substantivo masculino
1. Ferida, incisão ou corte provocado por instrumento cortante.
2. Pancada com instrumento contundente. = CONTUSÃO
3. [Esporte]  Movimento técnico de uma arte marcial, usado geralmente para derrubar, imobilizar ou atingir o adversário (ex.: golpe de judo).
4. Operação, geralmente armada, para tomar o poder político (ex.: golpe militar).
5. [Figurado]  Desgraça ou adversidade; sucesso infausto.


Trecho 2

Do conto "Essa Mulher", de Rodolfo Walsh:

"O que queriam fazer com ela?

— Lançar no fundo do rio, atirar de um avião, queimar e jogar as cinzas na privada, dissolver em ácido. Quanto lixo temos que ouvir! Este país está coberto de lixo, ninguém sabe de onde sai tanto lixo, mas estamos com ele até o pescoço, todos nós.
— Todos mesmo, coronel. Porque no fundo concordamos, não é? Chegou a hora de destruir. É preciso quebrar tudo.
— E urinar em cima.
— Mas sem nenhum remorso, coronel. Brandindo com alegria a bomba e a picana. Saúde! — digo, erguendo o copo.

Não responde. Estamos sentados perto da janela. As luzes do porto brilham: azul-mercúrio. De quando em quando se ouvem buzinas de automóveis, arrastando-se ao longe como vozes de um sonho. O coronel é apenas a mancha cinza de seu rosto sobre a mancha branca de sua camisa.

— Essa mulher — o escuto murmurar. — Estava nua no caixão e parecia uma virgem. Sua pele tinha ficado transparente. Dava para ver a metástase do câncer, como um desenho num vidro embaçado.

O coronel bebe. É forte."


Frases 2 

Minha: Viva o Brasil! (Terra de tanto riso, oh quanta alegria: mais de mil palhaços no salão...)

Da minha amiga Luise Aguirra: No caso são mais de 190 milhões de palhaços...

Do José Saramago, em seu blog, 26/02/2009: "Os cães vivem pouco para o amor que lhes ganhamos".

 

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